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Perdeu muito dinheiro, por causa do excesso de formalidade
Sou um homem simples, inimigo de formalidades, apesar de não ignorar que estas às vezes são necessárias. Pelo fato de ser assim, sem nenhuma apresentação fui à presença de um editor e propus-lhe o lançamento de uma obra de minha autoria, com a venda antecipada de 700 exemplares, por parte de um poderoso empresário. Esse editor, algo surpreso, mostrou-se interessado e eu lhe disse:
-O meu livro é sobre vários políticos brasileiros famosos. Tem documentação nova, indestrutível, perturbadora, mas poderei suprimir um ou outro capítulo, se o senhor achar que isto é necessário.
Ele concordou e me pediu, para ler o livro, trinta dias de prazo. Depois se comunicaria comigo. Mas enquanto o referido editor examinava a obra, ouvi de um íntimo amigo meu, redator de prestigiosa revista semanal, as seguintes palavras:
-Fernando, uma rica empresa paulista quer patrocinar a impressão de 10 mil exemplares de um livro sobre Roberto Simonsen, o idealizador do Senai e do Sesi, fundador em São Paulo da Faculdade de Engenharia Industrial e da Escola Livre de Sociologia e Política.
Eu acrescentei:
-Além disso, meu caro, ele foi um dos criadores da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo e deputado pelo Partido Constitucionalista à Assembléia Nacional Constituinte, no período de 1934 a 1935. Tornou-se pregoeiro incansável da industrialização do Brasil, da proteção governamental às indústrias.
Recebi os cumprimentos do meu amigo, pelo motivo de me achar bem informado. Ele solicitou:
-Indique-me um bom editor para lançar o livro sobre Roberto Simonsen. Já disponho de vinte intelectuais, que escreverão os capítulos. Você será um deles.
Citei o nome do editor a quem havia entregue os originais do meu livro sobre os políticos brasileiros. O meu amigo assentiu:
-Você o procure, de maneira rápida. Ele receberá 25 por cento do custo total, como adiantamento.
Por coincidência, a jovem secretária do editor me informara que ele queria falar com a minha pessoa. Compareci na sede da sua editora e declarei à moça:
-Senhorita, não tive o cuidado de avisá-lo, mas se ele puder me receber, eu espero. Se não for possível, depois telefono, a fim de marcar o encontro.
Ela saiu da sala e fiquei aguardando. Logo o editor apareceu na minha frente e esbravejou, ao lado de um fulano meio tonto:
-Não posso atender o senhor! Estou ocupado!
Respondi, sereno:
-Fique tranqüilo. Vou embora. Apenas vim lhe oferecer um negócio bem rendoso, cujo intermediário é redator de uma grande revista semanal.
Frenético, o editor gritou, abrindo a porta de saída:
-Estou muito ocupado! Marque uma hora!
Sem me abalar, respondi:
-Também estou muito ocupado. Creio que não poderei marcar a hora.
Calmo, transpus a porta, fui à procura de outro editor e lhe ofereci o negócio bem rendoso, imediatamente aceito.
A minha falta de formalidade enfureceu o editor formalista. Viu em mim um atrevido, um selvagem violador de etiquetas. O seu excessivo apego a certas convenções o fez perder uma enorme quantia.
Tycho-Brahé (1546-1601), célebre astrônomo suéco, viveu em Praga, na Tchecoslováquia, protegido pelo imperador Rodolfo lI. Certo dia, viajando numa carruagem ao lado desse soberano, ele sentiu urgente necessidade de urinar, mas não ousou revelar o seu desejo. Reteve a urina durante horas, e por causa disso morreu. Alguém fez para o pobre astrônomo este epitáfio:
“Aqui jaz quem,
possuindo a mais alta ciência,
foi vítima da decência,
e cujo verdadeiro
retrato se faz
numa só frase:
viveu como um sábio
e morreu como um tolo”
Resumindo: Tycho-Brahé perdeu a vida devido ao seu excesso de formalidade, e o editor aqui evocado, por causa desse mesmo excesso, perdeu muito dinheiro...
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Escritor e jornalista Fernando Jorge é autor do livro “Lutero e a Igreja do pecado”, cuja 7ª edição foi lançada pela Editora Novo Século.
criado por Fernando Jorge
11:17:38