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Impressionou-me uma reportagem de Eduardo Carneiro e Andréia Barros, publicada na excelente revista Nordeste, de João Pessoa. O seu título é este: “Crack, rápida, barata e mortal”. Descrevem os referidos jornalistas os efeitos destrutivos do crack no organismo dos que o usam como fumo ou substância injetável.
Borra da cocaína, fabricada pelo demônio, essa droga começa a agir no corpo do viciado em apenas dez segundos, alcançando logo os pulmões e o cérebro. Nos primeiros cinco minutos, causa uma sensação de euforia, mas em seguida nasce a “nóia” (abreviatura de paranóia), um insuportável sentimento de angústia. Então o usuário, para se livrar de tal sentimento, fuma outra pedra, e mais outra, e ainda mais outra... Alguns jovens pitam vinte ou trinta pedras, seguidamente, pois o crack é barato, cada um dos seus pedaços só custa, em média, cinco reais.
A rigor, ele é a forma menos salgada da cocaína, com algumas impurezas. Estimula no corpo humano a atividade da dopamina, esta mediadora química indispensável ao funcionamento normal do cérebro. Daí surge, no crackmaníaco, a mencionada sensação de euforia. Contudo, bem alto é o custo desse prazer, porque as células cerebrais ficam danificadas e são atingidos os vasos sanguíneos de muitos órgãos. Depois aparecem avarias nos rins, o aumento da pressão arterial, a asma ou a pneumonia, ou o mortífero edema pulmonar.
Chocante, o caso do rapaz Júlio César Dias, evocado pelos eficientes repórteres Eduardo Carneiro e Andréia Barros. Esse moço, após fumar maconha até os 14 anos, passou a usar o crack. Antes disso era um filho doce, carinhoso, porém a droga do Bruxo do Inferno iria transformá-lo numa criatura violenta. Certa vez, na ânsia de conseguir dinheiro, Júlio arrombou a farmácia de um dos seus tios e foi preso. Sua mãe, a lojista Valcélia Dias Queiroz, explicou aos dois jornalistas como o filho se opunha a aceitar o fato de ser um viciado:
-Cheguei a levá-lo em vários lugares, mas ele se negava, dizia que tinha confiança nele mesmo e que pararia quando quisesse.
Sob as garras aduncas da droga-abutre, cravadas na sua carne indefesa, o jovem largou o estudo, saía de casa às escondidas, vendeu uma bicicleta, um aparelho de televisão e quatro celulares, provavelmente furtados. E se não obtinha o crack, desesperava-se e se tornava agressivo.
Uma ocasião ele comprou grande quantidade da droga. A mãe descobriu onde Júlio a escondeu e jogou-a no vaso sanitário. Enfurecido, o filho dirigiu-se a uma boca-de-fumo e trouxe a mesma quantidade de crack. Incapaz de se conter, esbravejou diante da genitora:
-Eu comprei de volta e não tenho dinheiro para pagar. Se você não pagar para mim, ele (o traficante) vem me matar.
De maneira paulatina o crack demoliu a saúde do rapaz. Os seus rins pararam de funcionar, dores fortíssimas o atenazavam. Minutos antes de perder os sentidos no banheiro, ele disse a Valcélia:
-Mainha, eu vou morrer hoje.
A mãe não teve tempo de socorrê-lo. O rapaz de 23 anos caiu morto. Ela revelou:
-Não sei de onde tirei forças, mas levantei o meu filho, troquei a roupa dele e saí para comprar o caixão.
Durante a autópsia do corpo de Júlio, os médicos legistas constataram que todos os seus órgãos já estavam deteriorados, os rins, o fígado, o estômago, os intestinos, os pulmões. O crack os arrasara, como um guerreiro bárbaro e monstruoso decepa braços, pernas e cabeças.
Valcélia fez esta confissão, em frente de Eduardo e Andréia Barros:
-Sinto saudades do meu filho. Mas sei que foi melhor assim, foi melhor Deus o ter levado.
Amigo leitor, como essa mãe sofria ao ver o filho naquele estado! Sua dor era tão grande que Valcélia achava melhor o filho estar morto do que vivo.
A senhora Morte é feia? Quem pode provar? Se ela, no caso aqui apresentado, nos parece piedosa, libertadora, purificadora, sem dúvida também se mostrou bela.
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Membro do Conselho de Ética do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, o escritor Fernando Jorge é autor do livro “Lutero e a Igreja do pecado”, cuja 7ª edição foi lançada pela Editora Novo Século.
criado por Fernando Jorge
09:48:07