Artigos de Fernando Jorge

Artigos do escritor Fernando Jorge. Fernando Jorge é escritor, membro do Conselho de Ética do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo e autor de, entre outras obras, de “O Aleijadinho”, cuja 7ª edição foi lançada pela Editora

Artigos de Fernando Jorge

Artigos do escritor Fernando Jorge. Fernando Jorge é escritor, membro do Conselho de Ética do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo e autor de, entre outras obras, de “O Aleijadinho”, cuja 7ª edição foi lançada pela Editora
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Arquivo de: Fevereiro 2008

11.02.08

O Brasil está tão rico...

O Brasil está tão rico que hoje pode distribuir dinheiro à vontade?

     O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, nas suas viagens à África, deu de presente 2,7 milhões de dólares ao Cabo Verde, 36 milhões de dólares ao Gabão, 83 milhões de dólares à Nigéria, 315 milhões de dólares a Moçambique, 400 milhões de dólares ao Congo-Kinshasa (como perdão da dívida deste país). E ainda ofereceu 1 bilhão de dólares às empresas nacionais que se disponham a investir em Angola. Toda essa dinheirama não veio do seu bolso e sim do bolso do povo brasileiro. Embaixador aposentado, M. Pio Correa nos revelou isto no artigo “Lula Africanus”, publicado na edição do dia 11 de dezembro de 2007 do jornal O Globo.
     Os dados aqui expostos me estarreceram. Perguntei a mim mesmo: o Brasil está tão rico, mas tão rico, que hoje pode distribuir dinheiro à vontade, em qualquer país estrangeiro? Ficamos mais cheios de caraminguás do que os xeiques da Arábia Saudita? Agora todos nós, brasileiros, vivemos em casas com camas de ouro? Passamos as nossas férias em Dubai? Não temos mais a fome, o desemprego, a miséria? Professores, militares, funcionários públicos, trabalhadores, sentem-se imensamente felizes, pois todos ganham muito bem? As nossas favelas desapareceram? É tão grande a nossa opulência que não nos faltam escolas excelentes, hospitais moderníssimos e magníficas estradas de rodagem? Graças aos nossos cofres entupidos de ouro, dólares e diamantes, construímos dezenas de penitenciárias, despoluímos os rios, consertamos os sistemas aeroviário, rodoviário e ferroviário?
     Alô, alô, Azerbaidjão, Bósnia-Herzegóvina, Camboja, Burundi, Cazaquistão, Eslováquia, Gâmbia, Guiné-Bissau, Hong Kong, Kuwait, Madagascar, Moçambique, Nicarágua, Papua, Ruanda, Suriname, Tanzânia, Trinidad e Tobago, Usbequistão, Zimbábue, enfim, qualquer país desse mundo atrapalhado, alô, alô, se vocês querem dinheiro, bastante dinheiro, milhões de dólares, o governo do Brasil dá logo, de verdade, pois a nossa pátria está podre de rica e não, em absoluto, podre devido à corrupção.
     Por favor, não duvidem, o nosso governo decidiu aumentar em 10 bilhões de reais a tributação sobre o sistema financeiro – eu acredito – não foi para compensar a perda da arrecadação depois do fim da CPMF, o imposto do cheque. Não, não foi. Se o nosso governo agiu assim, na minha opinião, foi para o Brasil ficar ainda mais rico e continuar a distribuir milhões de dólares nos países asiáticos, africanos e sul-americanos.
     Elogiemos o governo do Lula, pois vão subir o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), pago por pessoas físicas e jurídicas que recorram às várias formas de crédito, e a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL), que taxa o setor financeiro. Tal medida será acompanhada pela suspenção dos reajustes salariais dos servidores públicos.
     Juro, fiquei entusiamadíssimo com essas providências do nosso sábio governo. Formidável! Que maravilha! Agora, se o Lula for a Uganda, país do leste da África, repleto de conflitos étnicos, ele poderá dizer ao presidente dessa nação:
     -Companheiro, você precisa de quantos milhões de dólares? Quer 315 milhões, como os que dei para Moçambique? Quer mais? Não se acanhe, companheiro. O jabaculê tá sobrando. Lá no Brasil o meu governo ficou ainda mais rico, quando quebrei a minha promessa de não aumentar os impostos e fui ajudado, ao realizar esta benéfica traição, pelo ministro Guido Mantega, meu ministro da Fazenda, e pelo Paulo Bernardo, meu ministro do Planejamento.
     A mania do Lula, de dar milhões de dólares aos países africanos, é idêntica a do fulano cuja casa está caindo aos pedaços e necessitando urgentemente de reparos, mas que em vez de salvá-la vai socorrer a casa do vizinho...

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Escritor e jornalista, Fernando Jorge é autor do livro “Lutero e a Igreja do pecado”, cuja 7ª edição foi lançado pela Editora Novo Século.

04.02.08

CONSELHOS A UM MARIDO

CONSELHOS A UM MARIDO QUE QUER SEPARAR-SE DE SUA ESPOSA

   Jamais gostei de dar conselhos, porque não me julgo nenhum sábio, mas agora estou numa posição especial, que me força a violentar o meu temperamento. Um leitor de Santos enviou-me uma carta, descrevendo o seu drama íntimo. Ele declara, em determinado trecho da carta:
    “Peço ao senhor que me responda, numa de suas crônicas. Não sou egoista. Pode ser que meu caso não seja o único. Deste modo um outro indivíduo, que esteja em idêntica situação, poderá aproveitar os seus conselhos, os quais, tenho certeza, serão respeitosamente acolhidos.”
     Examinemos o problema desse leitor. Homem de meia-idade, diz ele, tem quatro filhos e está casado há quase trinta anos com uma senhora que conta igual número de outonos. De uns tempos para cá, sem conseguir explicar a razão, sente-se nervoso, aflito. Tudo o fatiga, tudo o aborrece. Já não suporta a presença da dedicada companheira. Ela, sempre fiel, calma, discreta, causa-lhe um mal-estar indefinível. A fisionomia abatida, murcha e um pouco enrugada da paciente esposa, e os seus cabelos já meio brancos, provocam no espírito do meu leitor um certo desencanto, uma profunda melancolia... Confessou-me que se acha cansado da própria mulher. Não descobre nela nada mais que o seduza.
     Aqui vai um conselho ao meu leitor: não menospreze a sua esposa. Procure ver quanta beleza existe nos seus cabelos algo prateados. Cada um dos fios brancos da sua cabeça é a marca de uma fidelidade silenciosa.
     Vou evocar, para o meu agoniado leitor, a crise psicológica de um nobre europeu. A história é verdadeira.
     A condessa de Eglington, uma das mulheres mais lindas da Escócia, tinha ultrapassado a casa dos quarenta anos. O seu marido pretendia, de maneira obstinada, ganhar um herdeiro, e a condessa lhe dera sete filhas. Desesperado pelo fato de não ter um sucessor, o conde, tipo excêntrico, resolveu separar-se para sempre da esposa. Propôs que consentisse no divórcio.
     - Sem dúvida - disse a condessa - mas eu não devo, nem posso consentir na separação, enquanto o senhor não me devolver tudo que recebeu de mim.
     Esta foi a resposta do conde:
     - Concordo. Não somente pretendo devolver o dote que recebi de sua pessoa, como também concedo à senhora, da mesma forma, uma pensão vitalícia.
     - O senhor não me compreendeu - replicou a condessa - guarde o meu dote e todos os seus bens. Não é disso que eu falo. Para que nos separemos é necessário, primeiro, a devolução da minha mocidade. Em seguida, a da minha beleza de jovem. Depois, senhor conde, quero a entrega de minha condição de solteira, pois o senhor haverá de convir que recebeu de mim essas três coisas muito preciosas.
     Impressionado com o pedido, o conde de Eglington abaixou os olhos, reconhecendo a injustiça que praticara. E nunca mais falou em divórcio.
Agora, meu insatisfeito leitor, disposto a acabar com o seu casamento, permita-me fazer esta pergunta, baseado na história acima narrada: após trinta anos de convivência, o senhor poderá devolver à sua esposa a mocidade que ela possuia e que lhe entregou, e também a sua beleza de jovem, as suas ilusões, a sua condição de solteira? Se puder devolver-lhe tudo isto, o senhor terá o direito, na minha opinião, de abandoná-la e de andar de cabeça erguida, até o fim da sua vida.