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Na Antiguidade a inveja era representada, conforme podemos ver nas Metamorfoses do poeta latino Ovídio (43 a.C. – 17 d.C.), com uma serpente sempre a lhe roer o peito, os olhos sumidos e espantados, o rosto lívido e cheio de rugas, o corpo enfeitado de víboras, exibindo numa das mãos três serpentes e na outra uma hidra de sete cabeças. Em suma, os gregos e os romanos a viam como um monstro.
Filha de um tintureiro da cidade Cólofon, especializado em púrpura, a jovem Aracne ousou desafiar Minerva e vencê-la na arte da tapeçaria. Apesar de ser a deusa do saber, das ciências, das artes, a prudente Minerva, sob o acicate da inveja, estraçalhou o trabalho de Aracne. Depois lhe deu uma sova. Angustiada, a jovem enforcou-se e a deusa transformou-a numa asquerosa aranha.
Esta história mitológica nos ensina que é temerário despertar a inveja dos poderosos.
Nonius Aspemas, oficial da corte do imperador romano Augusto, após sofrer um acidente, ficara aleijado. Passou então a sentir violenta inveja dos seus amigos mais saudáveis. Convidou-os para uma festa – eram cento e trinta – e liquidou todos eles, servindo-lhes um veneno fulminante.
Conclusão: a inveja tem dezenas de caras. Várias criaturas, sob as garras dos imensos complexos de inferioridade, estimuladas por ela, podem nos fazer o mal.
Vou evocar aqui curioso fato histórico, comprovando isto. O imperador Nero queria ser um poeta de talento, como Lucano (39 a.C. - 65 d.C). Este nascera em Córdova, na Espanha, e escreveu o poema épico Farsália, em dez cantos, onde descreve a guerra civil entre César e Pompeu.
Durante os jogos literários instituídos pelo cruel imperador, Lucano o derrotou com a sua poesia “A descida de Orfeu aos Infernos”. Nero não conseguiu esquecer esse revés. Transcorrido algum tempo, azedado pela inveja, o filho de Agripina proibiu que Lucano, tanto no teatro como na presença de amigos, declamasse dois poemas de sua lavra, um sobre o incêndio de Tróia e o outro sobre o incêndio de Roma...
Nem os artistas famosos escapam das unhas aduncas da bruxa Inveja, cuja máscara lhe foi dada pelo diabo. Andrea Del Castagno, célebre pintor italiano, nascido em 1423, matou por inveja o pintor Domenico Veneziano. O assassino o seguiu ao longo de uma via pública e amassou a cabeça de Domenico com um enorme pedaço de chumbo.
Aqui em São Paulo há um subliterato que na minha frente declara ser meu fiel amigo e grande admirador. Mas ele fica pálido de inveja, trêmulo, quando recebe esta informação nas livrarias:
-As biografias do Aleijadinho, de Olavo Bilac, de Santos Dumont, de Paulo Setúbal e de Martinho Lutero, da autoria do Fernando Jorge, continuam a ser bem vendidas.
Este fulano, ao ouvir tais palavras, segundo os meus amigos livreiros, dá a impressão de estar sofrendo um enfarte.
Baseado numa larga experiência, aconselho o seguinte ao amigo leitor:
I) Ao avistar na rua um invejoso, fuja sem que ele perceba, mude até de calçada, de itinerário.
II)Se não puder fugir, não fale muito com ele, disfarce de maneira educada e logo se despeça.
III)Jamais se mostre feliz na sua frente. Pelo contrário, revele tristeza, pessimismo.
IV)Finja que acredita nas suas palavras hipócritas. Hipocrisia contra hipocrisia.
V)Tome bastante cuidado ao conversar com um invejoso, principalmente se ouvir críticas a pessoas corretas, dignas de respeito.
Proceder assim, amigo leitor, é aplicar um pontapé nas nádegas do demônio e mandá-lo de volta às profundezas do reino de Satanás, no qual os invejosos perversos, enfiados num espeto em brasa, são assados como churrascos indigestos.

criado por Fernando Jorge
11:11:40Eu amo os meus cabelos brancos,
que parecem estar enluarados,
eles são a prova de que sofri,
mas me alegrei,
de que se fracassei,
também venci.
Meus nobres cabelos brancos,
meus queridos,
humaníssimos cabelos brancos!
Juro, vocês são a coroa
que eu me orgulho de ostentar,
a minha linda coroa de prata,
que não troco por nenhuma
coroa de ouro!
Queridos cabelos brancos,
símbolos da minha vitória
diante das tempestades da vida!
Cabelos que foram castanhos
e que agora, da cor da via-láctea
são as impressões digitais do
tempo na minha cabeça...
Olhem, meus amigos, esta minha
luzente coroa de prata,
fabricada na oficina do tempo,
com a ajuda da senhora Experiência.
Quando me vejo diante de um espelho,
essa coroa me diz baixinho,
carinhosamente:
Parabéns, Fernando,
você ainda resiste,
depois de sofrer a dor de perder,
ceifadas pela morte,
tantas pessoas queridas,
porém nunca esquecidas...
Parabéns, Fernando,
porque mais do que os bens materiais,
você amou os bens espirituais!
A minha linda coroa de prata
obra-prima dos meus cabelos brancos,
coroa da dor cristalizada,
da experiência muito vivida,
da vida muito sofrida,
dos meus momentos felizes e infelizes,
a minha querida coroa de prata
é o meu luar, o meu céu estrelado,
o meu rútilo tesouro,
que vale mais do que
qualquer cofre cheio de
pepitas de ouro!
Cabelos brancos, queridos
cabelos brancos,
vocês são o meu especial orgulho,
o belo troféu que ganhei
depois da batalha!
Vocês me fazem lembrar
do meu pai morto,
da minha mãe morta,
dos meus irmãos mortos,
dos meus amigos mortos.
Cabelos brancos, vocês são saudade!
Saudade dos que amei
e ainda amo,
saudade de um riso,
de uma voz, de um rosto,
das palavras meigas que ouvi
e que jamais pude esquecer,
saudade de um tempo morto,
saudade da minha mocidade morta.
Meus dignos, honestos cabelos brancos,
vocês falam dos que moram no meu coração,
vocês ressuscitam o tempo extinto
e devolvem para mim
os sonhos de outróra,
fazendo o tempo
ficar no agora,
o deserto virar um jardim florido,
o inverno ter a cor da primavera!
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Escritor e jornalista, Fernando Jorge é autor do livro “Vida e poesia de Olavo Bilac”, cuja 5ª edição foi lançada pela Editora Novo Século.

criado por Fernando Jorge
09:46:49