Artigos de Fernando Jorge

Artigos do escritor Fernando Jorge. Fernando Jorge é escritor, membro do Conselho de Ética do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo e autor de, entre outras obras, de “O Aleijadinho”, cuja 7ª edição foi lançada pela Editora

Artigos de Fernando Jorge

Artigos do escritor Fernando Jorge. Fernando Jorge é escritor, membro do Conselho de Ética do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo e autor de, entre outras obras, de “O Aleijadinho”, cuja 7ª edição foi lançada pela Editora
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Arquivo de: Outubro 2007

30.10.07

Não confie na pessoa que...

     A vida é uma grande e eficiente professora, que nos ensina o que não encontramos nos livros. Cheia de paciência, ela me dá aulas até hoje. Obrigado, professora Vida, muito obrigado! Graças à senhora, eu deixei de errar dezenas de vezes, embora as suas lições se mostrem freqüentemente amargas e joguem, em nossa alma, o peso da tristeza e da desilusão.
     Quanta coisa eu aprendi com esta professora severa... Os seus ensinamentos ficaram logo registrados na minha memória, não precisei decorá-los. Eis alguns deles:
      Não confie na pessoa que ao apertar a sua mão, você tem a impressão de estar segurando algo bem mole, escorregadio e pegajoso como um sapo. Isto revela, se a pessoa não é doente, se não sofre de anêmia, uma alma frouxa, inconfiável.
     Não confie na pessoa cujo olhar é vago ou inquieto, agitado. Criaturas assim são volúveis ou traiçoeiras. Podemos aceitar esses dois tipos de olhares com uma condição: se quem os exibe é míope e não usa óculos, ou se é vítima de um esgotamento nervoso.
     Não confie na pessoa que volta e meia costuma lhe dizer: “falaram mal de você e eu o defendi”. Quase sempre tal pessoa é invejosa, covarde e perversa. No fundo ela gostaria de ter o que você tem, e como não consegue, passa a recorrer aos baixos expedientes, às torpes sinuosidades das almas feitas de excremento.
     Não confie na pessoa que só se aproxima de você por interesse, nos seus momentos felizes, de sucesso, e logo se afasta quando você enfrenta a má sorte. Estas pessoas – é o “óbvio ululante” do Nelson Rodrigues – são tão falsas como as esmeraldas falsas de Fernão Dias Pais Leme e só merecem o nosso nojo, o nosso absoluto desprezo. Lembre-se desta frase do filósofo francês Paul Janet (1823-1899), autor dos Principes de métaphysique et de psychologie:
     “Para que uma intenção seja moralmente boa, é mister que não seja interesseira”.
     (“Pour qu’une intention soit bonne moralement, il faut qu’elle ne soit pas intéressée”)
     Não confie na pessoa que podendo cumprir a sua palavra, não a cumpre, apesar de ter garantido que a cumpriria. Quem procede desta maneira fornece uma prova indiscutível de completa falta de caráter, de real canalhice. Evite-as, pois essas pessoas emporcalham ainda mais o nosso mundo imundo, no qual, como disse o poeta Salomão Jorge, meu pai,

“Aquele que trouxer o amor e a luz,
Se for Sócrates, beberá cicuta,
Se for Cristo, morrerá na cruz”.

     Não confie na pessoa em cujos olhos você vê o brilho viperino de inveja. Esta irradia os fluidos do capeta e pode arruinar a sua vida. Se um invejoso afirma ser seu amigo sincero, não acredite, fuja dele do modo mais rápido possível. A inveja é a máscara de Satanás. O invejoso se alegra com as suas derrotas, meu caro leitor, e se sente infeliz com as suas vitórias. Possui um destrutivo olho gordo, capaz de nos ferir, de nos levar à desgraça, como certas pessoas, através de um simples olhar, causam a morte das plantas. Já vi isto e concordo com Raimundo Lulio (1235-1315), escritor místico catalão, que declarou no Llibre de mil proverbis:


      “A inveja mata continuamente o invejoso”.
     (“Envejós, sa enveja lo anciu tot dià”)


      Não confie nos que maltratam crianças ou animais, como cães e gatos. Torturar uma criança, suprema abjeção, é querer castigar a inocência, a pureza, o mundo antes do pecado. Victor Hugo salientou que “quando a criança nos olha, Deus nos sonda”. E quem bate em cães e gatos, em qualquer animal, ostenta a alma podre dos assassinos sádicos, é capaz de cometer sorrindo, deliciando-se, as maiores infâmias, as mais monstruosas crueldades.

23.10.07

A vida

A vida, na minha visão e na de cinco grandes poetas



Belmiro Braga (1872-1937), autor de Montesinas e Contas do meu rosário, era um poeta tão inspirado que recebeu a alcunha de o “Rouxinol Mineiro”. São dele estes versos:


“Nossa vida é como um rio
A principio tênue fio
de água límpida, a cantar.
Depois cresce, cresce, cresce,
e, rio de torvas águas
feitas de angústias e mágoas
não canta mais... Ruge e desce
para a Morte – o imenso mar...”


Eu penso assim: se a vida é totalmente um mal, Deus não a daria, e se é totalmente um bem, Deus não a tiraria. Portanto ela está além da nossa concepção de bem e de mal, transcende o nosso julgamento.
Um dos maiores poetas do Brasil, o maranhense Raimundo Correia (1859-1911), adotou esta filosofia:


“Viver! Eu sei que a alma chora
e a vida é só dor ingrata,
pranto, que não a alivia,
olhos, que o estão a verter...
Sofra o coração, embora!
sofra, mas viva! Mas bata
cheio, ao menos, da alegria
de viver, de viver!”


Eis aí, nos versos de Raimundo, o que eu chamo de “otimismo na amargura”. Aliás, se a vida é uma ilusão, vamos viver dentro dessa ilusão, aceitá-la, transformando o nosso desencanto num encantamento...
A fragilidade da nossa existência foi muito bem definida pelo romântico Casimiro de Abreu (1839-1860), que morreu com menos de 22 anos, vítima da tuberculose:


“A vida é triste-quem nega?
-Nem vale a pena dizê-lo.
Deus a parte entre os seus dedos
Qual um fio de cabelo”


Outro poeta romântico, Gonçalves Dias (1823-1864), falecido num naufrágio, aos 41 anos de idade, achava que a vida é uma luta incessante. Ele aconselha, no poema “Canção do tamoio”:


“Não chores, meu filho;
não chores, que a vida
é luta renhida;
viver é lutar.
A vida é combate
que os fracos abate,
que os fortes, os bravos,
só pode exaltar.”


João de Deus (1830-1896), nascido em Portugal, soube descrever a vida nestes versos cheios de singeleza e de musicalidade:


“A vida é o dia de hoje,
A vida é ai que mal soa,
A vida é sombra que foge,
A vida é nuvem que voa;
A vida é sonho tão leve,
Que se desfaz como a neve
E como o fumo se esvai:
A vida dura um momento,
Mais leve que o pensamento,
A vida leva-a o vento
A vida é folha que cai!
A vida é flor na corrente,
A vida é sopro suave,
A vida é estrela cadente
Voa mais leve que a ave:
Nuvem que o vento nos mares,
Uma após outra lançou,
A vida – pena caída
Da asa de ave ferida -
De vale em vale impelida,
A vida o vento a levou.”


Mas afinal de contas, amigo leitor, o que é a vida? Respondo, a vida é tudo isto que está nos versos destes cinco grandes poetas.

16.10.07

O tempo é um analgésico

O tempo é um analgésico: tira as dores das almas



     Como já informei, o meu amigo Cláudio Abramo, responsável pela reforma gráfica e editorial da Folha de S. Paulo, fez com que eu me tornasse um dos colunistas da Folha da Tarde, na qual mantive, a partir de agosto de 1972, a seção “Falando mal da TV”. Esta aparecia todas as quarta-feira s no suplemento “Imagem da Semana”. Fui encarregado de comentar, em quase uma página, as besteiras, os despautérios, as cenas vergonhosas e principalmente os erros de português dos programas de televisão. Um dos alvos das minhas censuras era o colunista social Ibrahim Sued, famoso pelos seus atentados às mais simples regras gramaticais.
     Pois bem, na edição do sai 27 de dezembro de 1972 do suplemento “Imagem da Semana”, por causa do seu livro 20 anos de caviar, eu critiquei:
     “Ibrahim Sued é um dos símbolos dos nosso tempo. Desprovido de cultura, sem nenhum talento, no entanto é um nome nacional. Quanto ele abre a boca, para falar na televisão, o que se vê é um desastre. O homem titubeia, gagueja, atrapalha-se, não consegue pronunciar as palavras de maneira correta, solta asneiras, comete erros de concordância, mistura os tratamentos, enfim, assassina, trucida o idioma português”.
     Certa ocasião, após lançar muitas porretadas no lombo do Ibrahim, eu estava conversando com o Cláudio Abramo na redação da Folha de S. Paulo, no momento em que o seu telefone tocou. Cláudio atendeu:
     -Quem? O Fernando Jorge? Sim, ele está aqui ao meu lado.
     Cláudio, com um olhar brejeiro, pousou o fone na mesa e me disse:
     -É o Ibrahim Sued, que do Rio de janeiro quer falar com você.
     Peguei o fone e ouvi a voz meio rouca do “turco”:
     -Você é o buzanta Fernando Jorge?
     -Buzanta?
     -Sim, buzanta, pois você PE filho de burro com elefanta.
     Respondi:
     -Você está enganado, não sou seu irmão, não pertenço à sua família.
     Ele berrou como um possesso de Dostoiewski:
     -Buzanta! Buzanta! Você é um buzanta, filho de burro com elefanta!
     Contra-ataquei:
     -Ouça seu camecaca, filho de camelo com macaca, vá lamber os pés da Miriam Gallotti, da Lia Mayrink Veiga e da Eva Monteiro de Carvalho, das grã-finas que não pára de bajular.
     Ibrahim rugiu:
     -Buzanta! Você é um buzanta! O general Médici, meu amigo íntimo, leu o seu ataque ao meu livro 20 anos de caviar e vai castigar você, seu buzanta!
     Junto de mim, após ouvir o meu revide, o Cláudio Abramo escangalhou-se de riso, e a tal ponto que o seu rosto, normalmente bem branco adquiriu a cintilante cor vermelha de uma salada de tomates cobertas de azeite.
     A fúria do Ibrahim não se aplacava:
     -O general Médici vai me vingar, seu buzanta!
     Repliquei, fazendo o Cláudio Abramo chorar de tanto rir:
   -Seu camecaca, filho de camelo com macaca, você só serve para lamber pés de grã-finas e botas de generais!
     Vomitando um palavrão, o Ibrahim Sued desligou o telefone.


* * *


     Incansável, o tempo age como um sedativo e um analgésico.
    A calma e tira as dores, as nevralgias das almas. Morto o Ibrahim, reconheci o seu valor no meu livro Vida e obra do plagiário Paulo Francis, pois ele renovou o colunismo social na imprensa brasileira e apesar de ser um apedeuta, enriqueceu a nossa língua com palavras e espressões novas. Cito apenas estas: cocadinha (adolescente bela e morena), champanhota (reunião festiva, na qual se bebe champanhe), rebu (confusão, agitação, desordem), linda de morrer, em sociedade tudo se sabe, ademã, que eu vou em frente.
No texto “Connaissance des beautés et des défauts”, o filósofo Voltaire (1694-1778) foi feliz ao dizer:
“O tempo é justiceiro e coloca todas as coisas no seu lugar.”
(“Le temps fait justice et met toutes lês choses a leur place”)
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Escritor e jornalista, Fernando Jorge é autor do livro “Vida e poesia de Olavo Bilac”, cuja 5ª edição foi lançada pela Editora Novo Século.

09.10.07

A minha briga com o Chacrinha

    Em agosto de 1972, sob os auspícios do meu amigo Cláudio Abramo, responsável pela reforma gráfica e editorial da Folha de S. Paulo, passei a ser um dos colunistas da Folha da Tarde, onde mantive a seção “Falando mal da TV” no suplemento “Imagem da Semana”, publicado todas as quartas-feiras. Incumbiram-me de comentar, na minha seção de quase uma página, os disparates, as baixarias e sobretudo os erros de português dos programas de televisão. Eu tinha de ver dezenas desses programas, ao longo dos sete dias da semana, mas embora não gostasse disso, cumpri a tarefa, pois era bem pago.
    Sob o título “O programa do Chacrinha apresenta cenas que ofendem o pudor”, investi contra ele na edição do dia 10 de novembro de 1972, do suplemento “Imagem da Semana”:
    “... no dia 15 de outubro, domingo, às oito horas da noite, quando as crianças ainda se mantinham acordadas, o programa do Chacrinha apresentou cenas vergonhosas: as chacretes, com as suas roupas colantes e protuberâncias à mostra, sobretudo as nádegas, rebolavam-se como se estivessem executando a dança do ventre, faziam gestos lascivos, eróticos, mais próprios de cabaré barato da zona do baixo meretrício do que um programa de televisão assistido por famílias.”
    Volto a frisar, a Folha de S. Paulo me pagava muito bem para escrever estas coisas. Quem se perdia de riso, ao lê-las, era o Cláudio Abramo.  Ele me estimulou:
    -Vá em frente, Fernando, desça o cacete. Língua não tem osso, mas quebra osso. Quanto mais esculhambar esses programas, mais a sua coluna será lida. E quanto mais for lida, mais você ganhará dinheiro.
Acatando o conselho do Cláudio Abramo, compareci num programa de televisão e neste, além de criticar o “comportamento indecente” do Chacrinha, condenei os seus erros de português, a sua “linguagem chula”. Ele reagiu, pois o jornal Notícias Populares, do grupo da Folha de S. Paulo, publicou a sua resposta na edição do dia 16 de novembro de 1972:
    “Alô, Fernando Jorge, como é que vai a sua plantação de capim?... Olhe aí, não adianta: o que você quer é aparecer, para muita gaita receber. O seu negócio é malhar, para um lugar de jurado arranjar. Mas não adianta pedir e insistir, porque no júri da Buzina do Chacrinha você não tem vez.”
    Eu e o Cláudio Abramo rimos bastante ao ler estas palavras. Decidi revidar com quatro singelas quadrinhas, na edição do dia 6 de dezembro de 1972 da Folha da Tarde:



“Chacrinha é muito bacana
E não tem nada de mau,
Aos fãs oferta banana,
Lingüiça, aves, bacalhau.

Sei o quanto ele deseja
O capim que sempre come,
E que quanto mais orneja,
Mais o Chacrinha tem fome...

Chacrinha tem sentimento
Que eu sempre louvo e bendigo:
Tira do pasto o sustento,
Só para dar ao amigo...

E me envia, com o afeto
Que sempre teve por mim,
O seu prato predileto:
Todo um feixe de capim...



     Jamais poderei esquecer-me das gargalhadas do meu querido amigo Cláudio Abramo, quando li para ele estes versos em voz alta no Restaurante Moraes, que freqüentávamos.
    Alguns anos depois fiz as pazes com a Chacrinha, no programa de televisão do Edson Curi, o Bolinha, do qual eu participava como jurado.
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Escritor e jornalista, Fernando Jorge é autor do livro “O Aleijadinho, sua vida, sua obra, sua época, seu gênio”, cuja 7ª edição foi lançada pela Editora Martins Fontes.