Artigos de Fernando Jorge

Artigos do escritor Fernando Jorge. Fernando Jorge é escritor, membro do Conselho de Ética do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo e autor de, entre outras obras, de “O Aleijadinho”, cuja 7ª edição foi lançada pela Editora

Artigos de Fernando Jorge

Artigos do escritor Fernando Jorge. Fernando Jorge é escritor, membro do Conselho de Ética do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo e autor de, entre outras obras, de “O Aleijadinho”, cuja 7ª edição foi lançada pela Editora
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Arquivo de: Setembro 2007

30.09.07

Pedras não tem alma?

Quem é capaz de garantir que as pedras não tem alma?

Reproduzo aqui, em primeiro lugar, o soneto “Noitinha”, de Florbela Espanca, que na minha opinião é a maior poetisa da língua portuguesa. Era uma mulher faminta de amor, em cujos versos freme o delírio da carne, mesclado a uma profunda angústia existencial. Parece que ela nutria um amor louco, desvairado, incestuoso, pelo seu próprio irmão, o aviador Apeles Espanca, falecido num desastre aéreo. Várias cartas dessa grande poetisa revelam isto, como as redigidas nos fins de 1925. Incapaz de conter a sua imensa angústia, dilacerada pela saudade e pelos selvagens desejos reprimidos, Florbela Espanca suicidou-se com veneno no dia 8 de dezembro de 1930, quando estava completando os seus trinta e seis anos. Mas agora vamos à leitura do soneto “Noitinha”, dessa insigne poetisa nascida em Portugal:

“A noite sobre nós se debruçou...
Minha alma ajoelha, põe as mãos e ora!
O luar, pelas colinas, nesta hora
É água dum gomil que se entornou...

Não sei quem tanta pérola espalhou!
Murmura alguém pelas quebradas fora...
Flores do campo, humildes, mesmo agora,
A noite os olhos brandos lhes fechou...

Fumo beijando o colmo dos casais...
Serenidade idílica das fontes,
E a voz dos rouxinóis nos salgueirais...

Tranqüilidade... calma... anoitecer...
Num êxtase, eu escuto pelos montes
O coração das pedras a bater...”

Raimundo Correia, um dos maiores poetas parnasianos do Brasil, é o autor deste poema intitulado “Peregrino”, onde um homem faz perguntas aos pastores, a uma fonte, às flores silvestres, às andorinhas, a uma pedra tumular:


“Zagais do monte, que um lindo
Rebanho estais a guardar;
-Essa empós da qual vou indo,
Vós não a vistes passar?

Fonte entre seixos filtrada,
-Não veio ela aqui beber?
Florinhas que orlais a estrada,
-Não vos veio ela colher?

E vós peregrino bando
De andorinhas a emigrar;
-Essa, em cujo encalço eu ando,
Vós não a viste passar?

Sem responderem, lá se iam
As andorinhas pelo ar;
E as florinhas não sabiam
Respostas nenhuma dar.

E a água corrente da fonte
Corria sem responder;
E os pobres zagais do monte
Nada sabiam dizer.

Mas, no fim da estrada, havia
Uma pedra tumular;
Esta, ai! sim, responderia,
Caso pudesse falar”.



O homem quis obter notícias acerca da mulher amada e não conseguiu, porém as receberia se essa pedra, no fim do caminho, tivesse língua e boca. Daí é fácil concluir: se as pedras falassem, milhares de histórias tristes elas narrariam!

O homem quis obter notícias acerca da mulher amada e não conseguiu, porém as receberia se essa pedra, no fim do caminho, tivesse língua e boca. Daí é fácil concluir: se as pedras falassem, milhares de histórias tristes elas narrariam!


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Escritor e jornalista, Fernando Jorge é autor do livro “Vida e poesia de Olavo Bilac”, cuja 5ª edição foi lançada pela Editora Novo Século.


24.09.07

A Comissão Editorial da Vozes

A Comissão Editorial da Vozes causou a esta um grande prejuízo econômico


Estou sentindo muita pena de Frei Antônio Moser, diretor-presidente da Vozes, por causa do imenso prejuízo de natureza econômica que a Comissão Editorial desta editora lhe causou e ainda vai causar. Frei Antônio, professor de Teologia Moral e Bioética, é dotado de viva inteligência, mas a referida comissão, de certa maneira, traiu a sua confiança, fazendo a Vozes perder, até agora, cerca de 300 mil reais.
Os membros de uma comissão editorial precisam ter, além de lúcida inteligência e boa cultura, um apurado senso crítico, uma aguda capacidade de discernimento, para acertar na escolha dos livros que devem ser publicados ou reeditados. Pois bem, a Comissão Editorial da Vozes rejeitou sumariamente o livro Os homens que mataram o facínora (a história dos grandes inimigos de Lampião), do jornalista Moacyr Assunção, de O Estado de S. Paulo. Esta obra, prefaciada por mim, é notável, fascinante, e já teve, até o presente momento, cerca de 8 mil exemplares vendidos, em menos de quatro meses. A Editora Record a lançou e cada exemplar custa 40 reais. A segunda edição se acha quase no fim. E a terceira vem aí. Portanto a Record irá ganhar, baseada numa análise, cerca de 500 mil reais, em pouco tempo.
Enviei uma carta à vítima, isto é, à Editora Vozes, antes de o livro do Moacyr ser desprezado como um monte de frases inúteis. Nessa carta eu disse “que se trata de obra pioneira e interessantíssima, fruto de sete anos de minuciosas pesquisas”. Depois garanti: “a primeira edição logo se esgotará”.
Não adiantou nada. Médico inglês, Thomas Fuller (1654-1734) estava certo: “é impossível ajudar a quem não admite receber conselhos” (“He that will not be counselled cannot be helped”).
Alegaram os “competentes” membros da Comissão Editorial, diante do senhor Lídio Peretti, que a obra era “invendável”. O resultado dessa oclusão mental (quero evitar aqui o substantivo burrice), foi apenas este: a Vozes viu reduzir-se a farelo uma bela soma de dinheiro e a Record meteu gorda quantia no bolso, um jabaculê reluzente, graças à carência de células cerebrais da tal comissão...
É tão amplo o sucesso do livro do Moacyr, é tão visível, que por esta razão o Jô Soares o entrevistou por quase uma hora, no seu programa da TV Globo.
A Vozes, coitadinha, vai perder ainda mais dinheiro. Cerca de 300 mil reais, dentro de quatro meses, pois a 5ª edição do meu livro Cale a boca, jornalista! será lançada por uma grande editora. Já assinei o contrato. As quatro edições anteriores, mal distribuídas, eram da Vozes, e ela não soube promovê-las. O meu livro, se não fosse isto, poderia estar na 10ª edição.
Enfatizo, além de contemplar o sumiço de muito dinheiro, por não ter publicado o livro Os homens que mataram o facínora, de Moacyr Assunção, ela vai perder outra enorme quantia, porque durante todo o ano de 2008 será comemorado o Bicentenário da Imprensa Brasileira, com o forte apoio da Federação Nacional de Jornalistas de São Paulo (FENAJ), da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), e do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, o mais influente do país, e no qual eu sou membro da Comissão de Ética.
Livros sobre a história da nossa imprensa e sobre os seus vários aspectos, como violências contra jornalistas, as perseguições que sofreram, serão adotados pelos professores dos numerosos cursos de Jornalismo que existem no Brasil, a fim de servirem como tema de dissertações e material de pesquisa.
Eu apreciaria examinar as caras dos membros da desastrada Comissão Editorial da Vozes, após a venda dos milhares de exemplares da 5ª edição, revista e aumentada, do meu livro Cale a boca, jornalista! – O ódio e a fúria dos mandões contra a imprensa brasileira. Utilizando-me do velho provérbio, decerto ficarão com a mesma cara “de quem comeu e não gostou”...

10.09.07

Comunicado

   Dentro de poucos meses, desde o inicio de 2008, vai ser comemorado o Bicentenário da Imprensa Brasileira. E os preparativos vão começar, pois a FENAJ (Federação Nacional de Jornalismo), a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), e o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, o maior do país, garantem que no ano de 2008 esse bicentenário não passará em branco.
   Devido a fuga de D. João VI para o Brasil, nasceu no Rio de Janeiro, em 1808, a Imprensa Régia. Daí o Bicentenário.
Idealizado pela FENAJ, será erguido em Brasília, próximo à Esplanada dos Ministérios, o Monumento à Liberdade de Imprensa.
   No Congresso Nacional, na Câmara dos Deputados e no Senado, vão ser realizadas, ao longo de 2008, várias sessões para homenagear o Bicentenário. O mesmo ocorrerá nas Assembléias Legislativas e nas Câmaras de Vereadores.
   Livros sobre a história da nossa Imprensa e sobre os seus aspectos, como violências contra jornalistas, as perseguições que sofreram, serão adotados pelos professores dos já numerosos cursos de jornalismo que existem no Brasil, a fim de servirem como tema de dissertações e material de pesquisa.
Palestras, cursos e conferências, também serão realizados, promovidos por entidades como a ABI, FENAJ e a ABL.

A guerra dos monstros contra os bebês

A guerra dos monstros contra os bebês


    Acreditem, estamos vivendo num planeta ainda bárbaro, selvagem, cheio de monstros.
   Simone Cassiano da Silva, de 27 anos, vendedora em Belo Horizonte, jogou a sua filha de dois meses, enfiada num saco de lixo, na Lagoa da Pampulha, para que morresse afogada, mas o bebê foi salvo. Vejam como Simone se referiu à filha:
   - Essa droga de menina!
   Transcorridos poucos dias, a dona-de-casa Regina Elaine Pereira, de 30 anos, joga a filha recém-nascida num valão, onde a encontraram morta, embrulhada num saco plástico. A pobrezinha exibia ferimentos na cabeça, causados por pancadas. Isto aconteceu em Porto Alegre.
   Conforme o relato de Romaria da Silveira, vizinha de Regina, foi a segunda vez que essa mulher jogou um bebê recém-nascido no valão:
   - Há três anos ela fez a mesma coisa.
   Logo em seguida, na capital paulista, Wilker Roger Cremon, de 26 anos, irritou-se com o choro da filha, de onze meses. Ele a espancou e lançou-a contra uma parede. Após coloca-Ia no andador, deu um pontapé nesse aparelho. O bebê, do segundo andar da casa, rolou pela escada abaixo, quase trinta degraus.
   Quando a mãe da criança apareceu, Tânia Cristina dos Santos, assistente administrativa, o agressor proferiu estas palavras:
   - Fale baixinho que a nossa filha está dormindo. Não acenda a luz. Ela caiu do andador, ficou enjoadinha,mas agora está tudo bem. E até ria, brincava, antes de dormir.
   Às três horas da madrugada, a mãe acordou, ouvindo a respiração difícil da criança. Todo desfigurado, o bebê sofria convulsões.
   Tânia o levou em coma para o Hospital da Mooca. Ali os médicos constataram que a menina tinha lesões na coluna e fraturas em todo o corpo.
   Durante quatro meses, segundo a polícia, o bebê havia sido espancado pelo pai. Wilker, na delegacia, confessou friamente o crime e não se mostrou arrependido.
   Em Bangu, no Rio de Janeiro, dez dias após o bebê de dois meses ser resgatado com vida na Lagoa da Pampulha, uma enfermeira do Hospital São Lourenço viu Luisa Pereira, de 32 anos, deixar a sua filha recém-nascida no chão, no meio dos carros de um estacionamento. Quase que o bebê foi esmagado pelos automóveis.
   No mesmo dia, em Nova Iguaçu, uma mulher jogou um recém-nascido na rua Mauro Cavalcanti, do bairro Cerâmico. A criança, dentro de saco plástico, acabou sendo estraçalhada por um veículo.
   Dezenas de urubus, em Realengo, sobrevoavam outro saco plástico que boiava no rio Piraquara. Abriram o saco e nele jazia um bebê morto, em avançado estado de decomposição.
   Qualquer cadela é mais humana do que essas mães assassinas.   
   Uma cadela não mata os seus filhos.
   É a guerra dos monstros contra os bebês. Tais bebês, embora filhos de monstros, não são monstros, mas as criaturas que os geraram - mãe ou pai - apresentam-se diante dos meus olhos como os frutos podres de uma época afastada de Deus, onde o que importa não é o amor à família e sim o imediato e pleno gozo sexual. Lema dos monstros:
   “Viva o materialismo! Morra a espiritualidade!”.