Artigos de Fernando Jorge

Artigos do escritor Fernando Jorge. Fernando Jorge é escritor, membro do Conselho de Ética do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo e autor de, entre outras obras, de “O Aleijadinho”, cuja 7ª edição foi lançada pela Editora

Artigos de Fernando Jorge

Artigos do escritor Fernando Jorge. Fernando Jorge é escritor, membro do Conselho de Ética do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo e autor de, entre outras obras, de “O Aleijadinho”, cuja 7ª edição foi lançada pela Editora
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Arquivo de: Agosto 2007

29.08.07

O Aleijadinho existiu realmente

     Acaba de ser aberta, no Centro Cultural do Banco do Brasil da capital paulista, a exposição “Aleijadinho e seu tempo”. Ela já atraiu, em Brasília e no Rio de Janeiro, mais de um milhão de visitantes. Exibe 208 peças, reveladoras do esplendor da civilização do ouro na Minas Gerais barroca do século XVIII, mas inúmeras pessoas ainda fazem esta pergunta:
    -O Aleijadinho existiu realmente ou é um mito?
Posso afirmar, ele não é uma lenda, pois com imensa paciência, durante mais de quarenta anos, pesquisei sobre a sua forte presença em nossa sociedade colonial. E o resultado desse esforço é o meu livro O Aleijadinho, sua vida, sua obra, sua época, seu gênio, cuja sétima edição foi lançada pela Editora Martins Fontes. Trabalho que ganhou o Prêmio Jabuti, conferido pela Câmara Brasileira do Livro, e elogiado por Germain Bazin, conservador-chefe do Museu do Louvre.
    Ao longo de anos e anos, a fim de reconstituir a trajetória do insigne artista, consultei em Ouro Preto a Seção Colonial do Arquivo Público Mineiro, o Livro de Termos da Irmandade do Santíssimo Sacramento, o Livro de Receita e Despesa da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos do Arraial do Padre Faria. E dezenas de arquivos.
     Provei no meu livro, documentadamente, que o Aleijadinho nasceu em Vila Rica, atual Ouro Preto, no dia 29 de agosto de 1730, e que faleceu na mesma urbe, em 18 de novembro de 1814, com a idade de 84 anos, dois meses e 21 dias.
    Provei que ele, Antônio Francisco Lisboa, era filho natural de Manuel Francisco Lisboa, afamado arquiteto português, e de Isabel, uma pobre escrava africana.
    Provei que os mestres do nosso genial escultor foram o seu próprio pai, o entalhador Francisco Xavier de Brito, e o abridor de cunhos João Gomes Batista, da Casa de Fundição de Ouro de Vila Rica.
     Provei que o Aleijadinho apresentava estes claros sintomas de lepra anestésica: atrofia dos dedos das mãos; dores intensas nas extremidades destas; contorção da boca, do queixo, dos músculos faciais; furos, chagas nas plantas dos pés, isto é, a presença da broca, do mal perfurante plantar.
     Provei, endossando a informação de Rodrigo José Ferreira Bretas, que são do Aleijadinho as seguintes obras na Igreja de São Francisco de Assis de Ouro Preto: a talha e a escultura do frontispício, os dois pulpitos, o chafariz da sacristia, os anjos do altar-mor, a escultura do teto da capela-mor, a figura do cordeiro sobre o sacrário, as imagens das três pessoas da Santíssima Trindade.
     Provei que de fato, em Ouro Preto, ele deixou belíssimas obras na Igreja de Nossa Senhora do Carmo e na Capela de São Miguel e Almas, também chamada Bom Jesus das Cabeças.
     Provei, como fruto amadurecido das minhas exaustivas pesquisas, a extraordinária semelhança entre os dois atlantes do coro da Igreja de Nossa Senhora do Carmo de Sabará, em madeira policromada, esculpidos pelo Aleijadinho, e os dois atlantes de mármore do pórtico da Câmara Municipal de Toulon, da lavra do notável Pierre Puget, considerado por Luc-Benoist o único grande escultor barroco da França.
      Estabeleci esta hipótese: o Aleijadinho se inspirou numa gravura que mostrava os atlantes do artista europeu, talvez oferecida a ele pelo seu amigo, o padre José Correia da Silva, ou por outro membro da Ordem Terceira do Carmo de Sabará.
     Quem me ajudou a realizar essa minuciosa pesquisa, em torno de Pierre Pujet, foi o senhor Jacques de Croizant, adido cultura e de cooperação científica e técnica do Consulado Geral da França em São Paulo. Sou-lhe muito grato.
     E grato também me sinto em relação a dezenas de professores municipais, estaduais e universitários, que indicaram o meu livro sobre o Aleijadinho para os seus alunos, como segura fonte informativa da complexa sociedade mineira da época de Tiradentes.

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Escritor e jornalista, Fernando Jorge é autor do livro “O Aleijadinho, sua vida, sua obra, sua época, seu gênio”, cuja 7ª edição foi lançada pela Editora Martins Fontes.

07.08.07

O gambá se lambuzou de mel

A esperteza é a malícia e vivacidade da inteligência, mas existem pessoas muito inteligentes que não são espertas. Isto nos leva à seguinte conclusão: pode haver mais esperteza numa pessoa do que cérebro ou capacidade de raciocínio. É um problema algo idêntico ao da memória, pois esta, sem dúvida, é uma poderosa auxiliar da inteligência, porém não chega a ser a inteligência.
Sir. Thomas Lipton, quando era menino, viu o seu pai, um comerciante, efetuar uma venda de ovos. O garoto indagou:
-Por que o senhor não deixa à minha mãe o trabalho de vender os ovos?
Estranhando a observação, o pai de Thomas quis saber:
-Qual é a vantagem disso?
Sem vacilar, o menino respondeu:
-É que as mãos da mamãe são pequenas, bem menores do que as suas, e desse modo os ovos ficariam grandes, maiores aos olhos do freguês...
Devido a essa luminosa sagacidade, Sir Thomas Lipton iria tornar-se o mais célebre mercador de chá do nosso planeta.
Agora evocarei uma fábula dos índios brasileiros, da qual eu gosto muito.
Certa vez a onça teve esta idéia:
-Se eu me fingir de morta, os bichos vão acreditar. E o gambá também, mas aí eu o pego.
A onça se estendeu no chão, fechou os olhos e ficou imóvel como uma pedra. Logo a noticia correu: ela havia morrido. Ao saber do fato, os bichos foram entrando na cova da espertalhona. Entravam e diziam:
-Graças sejam dadas a Tupã, a onça morreu! Finalmente vamos ter a paz e viver sossegados! Poderemos passear a até nos divertir, pois a onça morreu!
E a bicharada ria, cantava, brincava. Pela selva começou a ecoar, com mais alegria e intensidade, o silvo do caboré, o grasnido da jandaia, o chocalhar da cascavel, os gargarejos dos sapos, os gritos metálicos das arapongas. No meio de toda essa festa, de todo esse estrupício, o gambá apareceu e indagou, cheio de cautela:
-Digam-me uma coisa, a onça já soltou um arroto?
Os bichos informaram:
-Não.
Piscando maliciosamente um olho, o gambá explicou:
-O meu avô, assim que morreu, arrotou três vezes.
Deitada lá no chão, ao ouvir isto, a onça emitiu três fortes arrotos.
Mal podendo conter o riso, o gambá fez esta pergunta:
-Quem é que já viu alguém arrotar depois de morto?
E antes da onça tentar agarrá-Io, o gambá fugiu, meteu as patas na carreira, apesar de ser, quase sempre, um animal muito lerdo e pouco ágil.
Há também, uma outra história dos nossos índios sobre a esperteza desse bicho, e tão expressiva como esta que acabei de narrar.
Disposta a pegar o gambá, a onça ficou de tocaia no poço onde todos os animais iam beber. Mas o gambá descobriu o plano de sua inimiga e escapou armadilha. Todavia, ele precisava matar a sede. Forjou então um estratagema.
Quando avistou uma mulher com um pote de mel na cabeça, o gambá deitou-se no caminho que ela percorria e fingiu que estava morto. A mulher o empurrou e continuou a andar, Rápido, o gambá se ergueu e foi bancar o defunto mais adiante. De novo a mulher o empurrou, porém voltou a vê-Io alguns minutos depois, em outro trecho do caminho. Este fato a fez raciocinar da seguinte maneira:
-Já é o terceiro gambá que eu vejo. Preciso recolher os três, pois a carne desse bicho é macia e saborosa como a da galinha. Deixarei o pote de mel aqui no chão, a fim de ir apanhar os outros.
Ela colocou o objeto junto do gambá que se fingia de morto e afastou-se. Nesse momento o bicho abriu o pote e se lambuzou de mel. Rolou depois num monte de folhas secas, caídas de um arbusto. Adquirindo o aspecto de peludo animal exótico, ele foi até o poço, onde pediu à onça a licença para beber.
-Beba à vontade - disse a onça - eu sou hospitaleira, embora não conheça a sua espécie e a sua tribo.
Foi assim que o gambá saciou a sede e iludiu uma implacável inimiga. Como reza o velho adágio, “a onça é esperta, mas cai na esparrela”.
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Escritor e jornalista, Fernando Jorge é autor do livro “As lutas, a glória e o martírio de Santos Dumont”, cuja 5ª edição foi lançada pela Geração Editorial.